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A mulher que recolhia os defuntos

Na estante de madeira, os cadernos organizados. Numerados por ano na lombada e na capa. Os achados, registrados por dia, mês, local, características físicas das pessoas e os supostos instrumentos utilizados contra a vítima. Na página seguinte, cópia do Boletim de Ocorrência e, na sequência, as fotos do cadáver e da quadra onde o corpo estava sepultado. O acervo reúne informações de mais de 20 anos. Entre as décadas de 1970 e 1990. A casa de Nazaré Piedade é referência, na pequena cidade do sul do Pará. É ali, naquela habitação de madeira e não em um prédio público, que muita gente chega com esperança de encontrar pistas sobre pessoas desaparecidas. Piedade, descendente de negros e índios, contava mais de 35 anos de idade quando iniciou o trabalho de acolher os mortos. Viúva, mãe de três filhos, ela nasceu em Barra do Corda, no Maranhão. Migrou para o Pará ainda criança, na companhia dos pais, em busca de terra, no período da safra de castanha-do-pará. As profundas intervenções do Estado e a chegada de empresas madeireiras, agropecuárias e de mineração produziram fortes impactos na região. Castanheiras, ipês, mognos e outras árvores foram derrubadas e cortadas nas serrarias. O fogo consumiu o que restou da floresta e, em pouco tempo, surgiram imensas áreas de pastagem. A rodovia que liga os municípios de Xinguara a São Félix do Xingu cortou territórios indígenas e provocou uma corrida de garimpeiros em direção aos rios e serras da região. A pata do boi destruiu as plantações dos posseiros. Houve reação, conflitos e mortes. Quem resistiu ao cerco foi eliminado por pistoleiros, ou por policiais a serviço de grileiros. Nas fazendas de gado predominava o trabalho escravo. Quem tentava fugir era morto e os corpos, atirados nas estradas vicinais. Aí começava o trabalho de Nazaré Piedade. Ela não deixava nenhum defunto insepulto. Procurava a polícia e pedia ajuda para remover o cadáver. Como não havia meios de periciar o corpo, o máximo que a mulher conseguia era registrar um Boletim de Ocorrência, com a data, local do achado, as marcas de furo no corpo e possíveis calibres das balas. Piedade, funcionária pública, providenciava roupa ao morto, o caixão e a cruz enfiada em cima da cova. E despertava a curiosidade popular por cuidar de corpos sem vida, enquanto o Estado se isentava de amparar pessoas vivas, classificadas como “vulneráveis sociais”. Dois objetos acompanhavam aquela mulher em suas andanças para recolher os mortos: o caderno de anotações e a velha máquina fotográfica que herdara do pai. Na cruz da sepultura ela mesma pintava a data e o número do BO. Piedade esperava que algum parente ou amigo procurasse pelo desaparecido. E suas informações estavam ali para facilitar a identificação e ajudar a pôr fim ao sofrimento dos familiares das vítimas. A iniciativa de Piedade lembra a protagonista do filme “Estação Doçura”, maquiadora de cadáveres numa funerária. O trabalho solitário e rejeitado pela maioria das pessoas é o que aproxima realidades tão diversas entre uma personagem real da Amazônia e a ficção do diretor e roteirista alemão, Percy Adlon. Tem gente que se dedica a cuidar de crianças órfãs. Outros, de idosos. Há os que levam alegria aos enfermos nos hospitais. Há pessoas que cuidam de animais abandonados e que fazem campanha pela preservação da tartaruga, da baleia, do pirarucu, do mico-leão-dourado. Mas cadáveres de pessoas indigentes interessam apenas aos cursos de medicina. Para ler o conto completo, leia “Mosaico Amazônico”, de Paulo Roberto Ferreira, Editora Paka-Tatu - Click aqui

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