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“Os rios, a terra, as florestas, todos nós precisamos de vocês”

Trajetória de uma missionária que que se dedica há 40 anos aos povos originários da Amazônia Por Paulo Roberto Ferreira - Ela deixou o seu país de origem no período em que boa parte da população protestava contra a Guerra no Vietnã. E quando chegou em Brasília, tomou um susto: o aeroporto estava cheio de soldados, portando metralhadoras. Amedrontada, confundiu a palavra cruzeiro, da companhia aérea, com a moeda da época. E diante de uma casa de câmbio, perdeu o voo que a levaria a São Luís. Suas companheiras a esperaram durante o dia, mas ela só chegou à noite na capital do Maranhão, sem falar uma palavra do país, onde escolheu cumprir sua missão. Foi salva por uma senhora que falava inglês e conhecia a casa da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur. Roberta Lee Spires, ou melhor, irmã Rebeca, gostava de filmes de faroeste, quando criança, mas não suportava ver os indígenas serem tratados como vilões. Mesmo sem conhecer um dos avós, sabia que o sangue dos aborígenes corria em suas veias. E sem planejar, o destino a empurrou para a pastoral que se dedica à proteção dos direitos, das culturas e dos territórios dos povos originários no Brasil. Antes de chegar a Oiapoque (AP), no norte do País, Rebeca trabalhou com os jovens, em Coroatá (MA). Depois, percebendo que muitos maranhenses estavam migrando ao Pará, a partir da abertura da rodovia Transamazônica, ela acompanhou sua conterrânea, grande amiga e referência religiosa, a irmã Dorothy Stang, que pertencia a sua congregação e chegou quatro anos antes dela ao Brasil. Trabalhou sob as ordens dos bispos Dom Estêvão Avelar e Dom Alano Pena, levando às comunidades rurais, às margens da rodovia PA-70 (hoje BR-222), a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela ONU em 1948. Por isso foi chamada a depor no quartel do KM 8, em Marabá, sede do 52º Batalhão de Infantaria de Selva, junto com Dorothy e outros padres e leigos da igreja católica. Em 1978 a irmã Rebeca foi enviada por Dom Alano para representá-lo numa reunião no Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e ali ela descobriu que sua missão ganhava um novo rumo. A Dorothy continuou trabalhando com os lavradores e ela seguiu para o Amapá. Leitora de Paulo Freire, Darcy Ribeiro, José Mauro de Vasconcelos, Rebeca caminhou firme na trilha da Teologia da Libertação e ajudou, junto com o padre Nello Ruffaldi, a criar o jornal (depois revista) “Mensageiro” e o programa radiofônico “Potyrõ”. Ela se dedicou a tradução do crioulo, falado pelos indígenas das margens do Oiapoque, para facilitar a educação de várias etnias da região. Contou com a ajuda de pesquisadores e voluntários e hoje celebra os frutos daquele trabalho que já produziu muitos graduados, mestres e doutores, que prosseguem a missão de defesa do território e das culturas originárias. Rebeca esteve em 2025 nos Estados Unidos, acompanhando os últimos dias de sua irmã e voltou muito triste com a perseguição que os imigrantes sofrem em sua terra de origem. Ela, que quando se encontra lá, sonha em português e sente falta do calor da região equatorial. Seu corpo, já com 84 anos, não se acostuma com o frio de seu país de origem. Mas, sua mente lúcida, está focada nos jovens, a quem ela dedicou boa parte de seu trabalho como educadora. Ela agradece e recomenda a seguinte mensagem às novas gerações indígenas: “Continuem firmes e fortes, a humanidade precisa de vocês. Os rios, a terra, a mãe-terra, as florestas, os pântanos, todos nós precisamos de vocês. Nunca abandonem essa luta, essa defesa, esse amor. Nos ensine a amar também como vocês, em tudo que tem na mãe-natureza. Em segundo lugar, parabéns. Vocês têm tradições, ensinamentos e sabedoria de seus antepassados, mas mesmo assim vocês avançaram, não ficaram intimidados com o mundo moderno; aprenderam a utilizar as coisas que ele oferece e é bom aprender e usar também. Agora, junto com isso, eu faço uma advertência: enquanto apreciam, aproveitem e utilizem para ajudar o povo da mãe-terra, a mãe-natureza. Enquanto aproveitam a modernidade, não sejam engolidos por ela; não sejam engolidos por suas mentiras, falsidades, seus enganos. Não se iludam, não se deixem ser tragados pelo poder, pelo dinheiro, pela riqueza”.
Leia a seguir a entrevista que me foi concedida (em várias etapas) por essa grande humanista. P - Qual o seu nome todo, idade e onde nasceu? Rebeca - Meu nome original é Roberta Lee Spires, nascida em 16 de julho de 1942, em Columbus, Ohio, nos Estados Unidos. P - Como foi para a senhora entrar para uma ordem religiosa? Foi um desejo desde criança ou foi influência de família? Rebeca - Na realidade, com 15 dias de nascida, fui batizada na igreja Os Irmãos Unidos, que é um ramo dos Metodistas, porque ninguém na família era católico. Como meu pai tinha morrido antes de eu nascer, minha mãe, viúva, deixou a gente aos cuidados de uma casa enquanto ela tinha que sair e trabalhar. O meu irmão, o mais velho dos três filhos, foi morar com uma prima da minha mãe, na área rural, em Logan, Ohio. E nunca morou com a gente, mas vinha todo ano nos visitar e nós também íamos visitá-lo. Eu e minha irmã morávamos em Cincinnati, também em Ohio. Passamos (eu e minha irmã mais velha) seis anos morando longe da mãe. Depois ela se casou novamente e levou a gente para nova casa, na capital, que é Columbus. Antes, a gente estava bem longe, no interior. Para chegar na escola, tinha que atravessar duas ruas grandes. Ela não podia levar a gente para a escola, então a nossa mãe pediu à paróquia para deixar a gente estudar lá, porque não tinha que atravessar a rua. E o padre aceitou. Foi o primeiro contato dela com os católicos. O padre aceitou, mas disse: “para ficar na escola, vão ter que estudar catecismo. E nos domingos tem a missa das crianças, elas têm que frequentar”. Minha irmã era um pouco mais velha que eu. A mãe concordou. Antes do fim daquele mesmo ano, eu e minha irmã pedimos à mãe se podíamos ser católicas. Ela achou estranho e perguntou por quê? P - Quantos irmãos moravam na mesma casa? Rebeca - Só eu e minha irmã. Minha irmã tinha um ano e sete meses mais que eu. Mesmo naquela idade, a mãe sempre consultava a gente. Éramos nós três. Quando ela encontrou o homem com quem casou novamente, trouxe ele para nos conhecer e perguntou: “o que é que vocês acham?” Eu lembro quando a gente chegou na nova casa (na capital) e a nossa reação foi: “uau, essa é a nossa casa?” Descobrimos que éramos uma família, com pai, mãe e filhos . Eu tinha seis anos, mas essa era uma coisa fantástica para mim. A casa do interior tinha tudo, mas não era nossa. Aquela nova casa tinha só uma cama, um colchão no chão, uma mesa, com quatro cadeiras, mas era nossa! Então começamos nossa nova vida. Aí fomos para a escola católica. Aí pedimos para ser católicos. A mãe consentiu. Mas ela disse: “tudo bem mas, se vai fazer isso, vai fazer bem feito”. E cada vez que o sino da igreja tocava, ela perguntava: “o que está acontecendo lá? Tem uma missa? Então, vai”. Ela nos impulsionou, sabe? Então, a gente assumiu com todo o coração. P - Uma baita de uma cabeça a sua mãe. Fantástica. Respeitava os filhos, né? Rebeca - Aliás, outra coisa, por que meu nome é Roberta, Lee? Porque meu pai era Robert Leo. E quando ele morreu, eu ainda estava na barriga da minha mãe. Então eu peguei esse nome dele. O nome da minha mãe é Rebeca. Quando a gente tinha uns 12, 13 anos, ela se batizou católica também. Aí fui para o ensino médio. E tinha muito essa coisa que eu queria fazer: “o que Deus queria de mim na vida?”. Aí eu fiz um retiro, lá no colégio onde eu estudava com as Irmãs de Notre Dame. Então eu senti que Deus queria que eu fosse irmã. Então, falei com a mãe, falei com o padre que dirigiu o retiro, e ele perguntou: por que não vai logo? “Eu nem terminei o colégio”, respondi. “Mas vai logo”, ele reafirmou. Aí eu falei com a mãe. Ela chorou muito, mas deu sua bênção e eu fui. P - Só você? A sua irmã, não? Rebeca - Só eu. Eu tinha 16 anos e não tinha ainda idade quando decidi. Mas completei em tempo, porque não podia entrar com menos então, aí eu fui. P - Era na mesma cidade ou em outra cidade? Rebeca - Outra cidade, 110 milhas, não sei quanto é em quilômetros (177,02 KM). E a família me visitava uma vez por mês. Podia visitar. Não tínhamos carro, sempre tinha que pedir a um amigo para levar. Aí fui. Portanto, sou irmã há 69 anos. Nem sempre foi fácil, não. Mas me sinto muito abençoada. Muito alegre nessa vida. P - Antes de vocês mudarem para a casa da cidade, do que a família de vocês vivia? Qual era o trabalho do seu pai? Rebeca – O meu pai trabalhava numa firma, uma grande firma que vendia sorvete. O salário era baixo, era o tempo da guerra. A Segunda Guerra Mundial estava em curso. E ele morreu numa viagem por essa companhia. Ele era passageiro no carro e morreu. P - E sua mãe trabalhava com o quê? Rebeca - Ela pegava tudo o que podia. Ela tinha três trabalhos. Três empregos. Por isso ela não podia ter a gente em casa. P - Mas o que ela fazia? Trabalhava de que? Rebeca - Nem sei. Eu sei que ela trabalhava em um restaurante, como garçonete. Quando começamos a morar juntos, ela era cozinheira numa lanchonete e os clientes eram pessoas que trabalhavam na ferrovia. Era gente assim, rústica e rude, que gostava de comida, muito caseira e ela era ótima em fazer isso. Onde a gente morava, antes de mudar para a casa nova, vivíamos com uma senhora idosa, que coordenava um programa do governo para que as crianças não ficassem perdidas devido à guerra. Muitos pais morreram na guerra. Então a nossa mãe usou aquele programa para garantir o nosso cuidado. P - Tipo um orfanato? Rebeca - Chama em inglês foster home (lar adotivo). Não é a adoção, mas assume as crianças. Como se fosse, a gente chamava ela de avó. Sem nenhum parentesco. P - Bom, então agora vamos voltar à outra questão. Você vai para o convento e aí passa por todo aquele processo, não é? Primeiro você vai estudar, depois vai tomar decisão, fazer votos. Conte um pouco sobre isso. Rebeca - Então, mesmo na escola primária, a gente viu muitas vidas dos santos. E um santo que eu tinha grande admiração era Francisco Xavier. E ele morreu querendo entrar na China. Então eu disse, eu vou para a China. Eu não era freira ainda, mas estava decidida que um dia eu iria para a China. E também a gente lia naquele tempo coisas horríveis: que o governo comunista na China pendurava pessoas pelos dedos e coisas assim. Horrorizavam a gente. Mas eu disse: é um lugar que precisa do evangelho, seguindo Francisco Xavier. Então, quando eu entrei em Notre-Dame, eu soube que tinha tido missões na China. Eu disse, é lá que eu quero viver. Logo, dei meu nome. Aí as irmãs disseram: oh, querida, acorda! A China fechou para nós, faz muito tempo. As irmãs que estavam lá tiveram que voltar. Inclusive, trouxeram duas chinesas que queriam continuar conosco. Oh, então pensa na América Latina. O Papa estava apelando para a gente ir para a América Latina. Então eu fui estudar. Quando eu fui para faculdade, naquela parte da formação. Estudei espanhol. Estudei a história da América Latina. Mas acabei vindo ao Brasil, aprendi português aqui. P - Durante a sua formação, nos Estados Unidos, a senhora chegou a se dedicar a uma área específica? A formação dos padres inclui Filosofia, Pedagogia e Sociologia. Ocorria o mesmo na formação das freiras? Rebeca - Naquele tempo não era decidido por nós, ou seja, o caminho era Pedagogia. Dependendo da pessoa, depois do básico, seria suficiente para o ensino do primeiro grau. A primeira parte do estudo, todo mundo fazia, dependo dos talentos e possibilidades, talvez algum estudo prévio que alguma pessoa tinha (o que não era o meu caso, que não tinha nem terminado o segundo grau), podia ser que na segunda parte do estudo, começava a se especializar num campo como Matemática, Física, Ciências Exatas ou outras. Enquanto muitos já estavam na faculdade, eu estava terminando o ensino médio, portanto eu estava atrasada com o estudo, em comparação às outras companheiras. Elas até completaram antes de mim e foram em frente. Eu fui formada em Pedagogia. Eu pedi para estudar espanhol porque a igreja católica, depois do Concílio Vaticano II, estava abrindo caminho de serviço na América Latina. No Ensino Médio eu tinha estudado Latim e Francês e então eu estudei espanhol com um argentino e foi muito bom. Lógica e Filosofia Psicológica eu estudei em casa. A aula de lógica eu gostei tanto, que quando a gente estava sem aula na faculdade, eu ia para a biblioteca estudar aula de lógica. P - Quando a senhora saiu do seu País os jovens reagiam contra a guerra do Vietnã. O que a senhora lembra daquele período? Rebeca - Eu fazia parte do movimento do contra. Lá no nosso colégio, onde eu fiz o segundo grau, das Irmãs de Notre Dame, no centro da cidade, a mensalidade era alta. Eu estudei lá porque ganhei uma bolsa (fiz teste) e eu só tinha que pagar a passagem do ônibus. O pessoal fazia movimento contra a guerra, na rua, e eu me juntava com as pessoas. Eu e uma colega minha, que foi do mesmo noviciado, estávamos envolvidas também em melhorar as condições do povo que morava em torno do nosso convento. Naquele tempo as crianças traziam frutas para os professores e nós recebíamos essas frutas, juntávamos num saquinho e levávamos para as pessoas da rua que estavam com fome. E depois, quando tinha alguma manifestação perto da escola ou da igreja, a gente ia fazer parte da manifestação. Às vezes, os superiores da Casa não gostavam disso, mas a gente era determinado. E antes de ser freira eu já tinha feito isso lá na escola. P - Quais eram os seus ídolos na música, no teatro ou no cinema? Rebeca - Quando eu era criança, o meu grande ídolo era Roy Rogers, o rei dos cowboys. Naquela época não se via sangue nos filmes de faroeste mas eu só não gostava mais porque os indígenas eram sempre tidos como maus. Naquela época eu e minha irmã íamos todo sábado para o cinema. Custava 10 centavos o ingresso e a gente lá torcendo pelos índios e o pessoal olhava mal para nós, mas a gente herdou do nosso avô (materno) o sangue índigena. E da adolescência para frente, os nossos ídolos do cinema eram pessoas como o James Dean, de “Rebeldes sem causa”, que mostrava a frustração da nossa geração, querendo se rebelar. Mas nós sabíamos que tínhamos uma causa, por isso não nos sentíamos frustrados. Gary Cooper, James Stewart são outras referências. Em termos de música, quando Elvis Presley apareceu foi um encanto, pois eu gostava muito de música sertaneja, que no meu país chama-se Música Country. Ele combinava o seu ritmo com o sagrado e era muito bom. Ele esteve na nossa cidade e eu fui ver o show. Eu simplesmente gostava da música dele. Outros que eu gostava na época (e até hoje) são o Neil Diamond e John Denver. Lembro também de Johnny Cash, Bil Haley and the Comets, Chuck Berry, Fats Domino, Aretha Franklin, Diana Ross, The Temptations. Guardo lembrança dos meus compositores favoritos, não importa a nacionalidade: Igor Stravinsky, Ludwig van Beethoven, Wolfgang Amadeu Mozart, Frederic Ilitch Tchaikovsky. No Brasil, eu conheci e gostei de Geraldo Vandré, Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Clara Nunes, Raul Seixas, Gilberto Gil, Alcione, Maria Betânhia e José Vicente. P - E como foi a vinda para o Brasil? Você estava com que idade? Rebeca – Com 28 anos. Eu tinha sido professora em Ohio. E depois no Arizona. Trabalhei com migrantes mexicanos. Que foi fantástico também. Poderia ter sido a minha vida. O trabalho missionário poderia ter sido no Arizona. Mas eu optei pelo Brasil. Ali, naquele contato com os migrantes mexicanos. P - A senhora se identificou com aquele povo? Com aquela dor, aquele sofrimento? Rebeca - Além de muitos mexicanos, tinham os chicanos. Eram americanos, mas de origem mexicana. Então, às vezes, na escola, por exemplo, a gente estava mediando uma guerra de gangues. Porque eram amigos de alguns e outros. Foi muito interessante. E eu trabalhava com um padre da paróquia. Ele era chicano também. E a gente fez um esforço para que não houvesse distinção entre os anglos e os chicanos. Defendíamos que tinham que estar unidos. E nos fins de semana, todas nós, irmãs, íamos para as fazendas, onde tinham os migrantes indígenas e chicanos também. Ou mexicanos mesmo. Imigrantes, às vezes ilegais. Era trabalho escravo mesmo. Terrível, terrível. E a gente não sabia o que fazer com aquilo. Não sabia mesmo. A gente só ia e fazia amizade. E começou a fazer campanhas para que as pessoas não comprassem alface, uvas, etc. “Não comprar isso aqui”. A gente publicava e pregava isso para a sociedade. Para dar apoio para aquele povo. E nesse meio tempo, se destaca a figura de César Chávez, que eu tinha conhecido em Ohio. Porque muitos migrantes trabalhavam nas fazendas em Ohio também. E César Chávez tinha ido lá. P – Quem era César Chávez? Rebeca - César Chávez foi um norte-americano de origem mexicana que começou os movimentos para criar os sindicatos de trabalhadores rurais nos Estados Unidos. Então essas coisas convergiram lá no Arizona. Eu estava no Arizona e ainda voltei para Ohio. Para mais um ano. Aí um dia a Madre Geral liga e diz: “se você quer ir para a missão, pode ir”. P - E onde era? Já era o Brasil? Rebeca - É, já era o Brasil. Porque eu podia escolher entre o Arizona, o México ou o Brasil. Por que eu escolhi o Brasil? Porque eu não sou tão pioneira. E o Brasil já tinha gente nas missões e no Arizona e no México não tinha. E tinha nesse meio a Dorothy Stang. P - Como foi a sua vinda para o Brasil? O que a deixou mais interessada? O que a motivou? Fale da Dorothy e dos primeiros momentos aqui também. Rebeca - Pois então, eu ainda não tinha esse convite, permissão de viajar, eu tinha só feito a entrada, o cadastramento para isso. Mas, na véspera do dia que eu professei os votos perpétuos, que concluí o período de formação, naquele dia, véspera da partida da Dorothy e Joana, duas irmãs de Ohio, estavam partindo para o Brasil, em 1966. Então, eu fui na partida delas, que aconteceu no meio da noite. E a família da Dorothy estava lá, o pai dela, uma graça, um coronel do Exército. Ele fazia uma bebida e servia lá, porque naquele tempo, as pessoas iam até a porta do avião, todos juntos (hoje em dia não é mais possível). Aí fizemos um cantão, enviamos Dorothy e Joana, com muito carinho, com muito entusiasmo, etc. E Dorothy deixou para mim um enorme mapa do Brasil, porque ela sabia que eu queria ser missionária. Então, lógico, isso influenciou bastante. P - Ela era mais velha que você? Rebeca - A Dorothy? P - Sim. Rebeca - Ela era mais velha de idade e da congregação também. P - Ela era mais velha quanto tempo? Mais ou menos? Rebeca - Dez anos. Dez ou nove. Dez ou onze anos. Então, foi uma influência muito forte isso. E aí ela veio. P – E você ficou quanto tempo lá ainda? Rebeca - Ela veio em 1966 e eu em 1970. Nesse meio tempo eu fui pro Arizona e depois para Dayton. E quando eu cheguei no Brasil, eu fui na casa onde a Dorothy estava. P - Qual foi o primeiro estado ou cidade do Brasil? Rebeca - Coroatá, Maranhão. P - Já veio direto para o Nordeste? Rebeca - Quando eu cheguei em São Luís, no aeroporto, estava perdida, tinha perdido o avião em Brasília, eu estava viajando sozinha. Vi uma placa com a palavra Cruzeiro e eu sabia que o avião que eu devia pegar era Cruzeiro. Só que onde eu estava sentada e tinha uma placa com a palavra Cruzeiro, na realidade era uma casa de câmbio e eu fiquei lá esperando o avião. P - A moeda, né? Rebeca - É, eu estava esperando o avião dar um sinal, mas não vi o aviso do avião. E tinha soldados por todo lado. Eu pensei comigo: nossa senhora, parece uma zona de guerra. Era o ano de 1970 e era uma guerra. Com metralhadoras e tudo no aeroporto. Então, andei e andei pelo aeroporto tentando entender o que fazer. Aí eu vi outra palavra Cruzeiro, aí eu encostei, mostrei a passagem. Sinto muito, você perdeu o voo. Já saiu o seu avião, disse o rapaz do balcão. Ele falou em inglês e eu acho que a minha cara caiu. Mas ele foi tão gentil: “não se preocupe, senta aqui”. Aí me botou sentada, voltou depois e disse: agora você vai viajar em outro horário. Enquanto isso, as irmãs, em São Luís, esperavam uma hora, mas eu cheguei no meio da noite. Cheguei lá, a situação era ainda pior, porque em Brasília alguém ainda falava umas palavras em inglês e em São Luís, não. P - E você ainda não falava nada de português? Rebeca - De espanhol eu manjava, mas não de Português. Aí eu estou no aeroporto tentando explicar com sinais e olhos para as pessoas da companhia aérea. E tinha uma senhora perto, ela virou e disse, eu falo inglês, em inglês ela falou, I speak English. Então, era uma senhora britânica que estava casada com o gerente da Coca-Cola, em São Luís. Pra minha sorte, ela era amiga das irmãs e me levou até a casa delas. Que coisa maravilhosa. Todo mundo dormindo e eu cheguei lá com essa senhora. Aí foi muito bom. P - A Dorothy já estava lá? Rebeca - Ela estava em Coroatá e eu ainda estava em São Luís. Dormi lá, e no outro dia fomos para Coroatá. Cheguei em Coroatá, estava tudo escuro, só uma lamparina, três lavradores escondidos na garagem, à frente do centro paroquial, tudo cheio de balas. Aí eu disse: “nossa senhora, onde que eu fui me meter?” Parecia uma zona de guerra. E as irmãs falando baixinho, baixinho, tem que sair de madrugada, os lavradores estão em perigo. Tudo bem, conseguiram fazer isso. Aí o padre da nossa paróquia e também o de outra paróquia, estavam na prisão, então a irmã Júlia, que estava na casa, levava todo dia comida para os padres presos, etc. Era uma... P - Você chegou no meio da guerra mesmo! Rebeca - É, foi muito interessante. P - E aí a Dorothy lhe recebeu lá, não é? Rebeca - A Dorothy que me ensinou tudo. Aí combinamos assim: a irmã Joana ensinava na escola; e a irmã Dorothy ia para o interior. Aí tinha o rio Itapicuru, que dividia a cidade. A cidade estava em duas partes. Engraçado, eu não lembro o nome que chamava o outro lado do rio. Tinha nomes para todos esses bairros, mas a gente ia até um ponto. No primeiro ano, sempre andávamos juntos, eu, Dorothy e um dos padres. Um padre ficava na cidade. P - Você já ficou lá em Coroatá? Rebeca - Fiquei. Essa foi a minha primeira missão. Fiquei quatro anos lá. Aí o padre que ia conosco fazia as missas, essas coisas. A Dorothy fazia reuniões com as mulheres e eu era para fazer reunião com os jovens. Nessas alturas eu já tinha feito a escola de línguas também. Quando eu fui lá para morar, para morar mesmo, aquela primeira vez era uma visita. Aí eu fui para a escola de línguas e depois voltei falando. P - Em São Luís? Rebeca – Não, foi em São Paulo, na Freguesia do Ó. A gente estava em um seminário. É outra novela. Estávamos lá para aprender português. De repente, o pessoal fecha todas as cortinas, porque tinha polícia lá fora. Você vivia esse clima o tempo todo. Era interessante isso. Mas a gente já aprendeu mesmo a falar. Não a escrever, mas a falar a gente aprendeu bem. P - E você ficou quanto tempo lá? Rebeca - Quatro meses, lá na escola de línguas. P - E essa escola pertencia à congregação? Rebeca - Não, era uma organização da igreja para missionários. Era uma escola para missionários mesmo. P - Da CNBB? Rebeca - É uma parte da CNBB. O organismo que cuida de missionários. E tinha gente de muitos países diferentes. Tinha italianos, britânicos. P - Então, agora você vai falar sobre o que aconteceu depois do curso de língua. Você voltou para Coroatá, foi desenvolver o trabalho lá, já dominando mais ou menos o idioma, já entendendo e falando alguma coisa, e qual é esse trabalho que você foi desenvolver? Rebeca - Então, em Coroatá, já falando mais ou menos, entendendo, às vezes, não tanto quanto, mas aprendendo. Andei com Dorothy e o padre Gabriel, andamos os três. O padre Gabriel se reunia com os homens; Dorothy com as mulheres e eu com os jovens. Em cada comunidade que visitávamos, a gente atravessava o rio e ia para o interior. Aí, a irmã não cantava bem, não segurava o canto e eu era cantora oficial também, para as celebrações. E andamos assim durante um ano, eu fiquei conhecendo todas as comunidades. Depois de um ano, a Dorothy vinha, atravessávamos o rio e tinha dois caminhos: “agora eu vou para cá e você vai para lá”. Aí cada um foi por conta própria. Isso quando a gente estava no interior. Na cidade, tínhamos a Ação Católica Rural (ACR), que foi a organização dos lavradores. E a igreja estava firme contra a ditadura. Então, a Dorothy estava no ACR e eu com a Juventude Agrária Católica (JAC). Então, todos dois eram Ação Católica, mas eu com a Juventude e a Dorothy com os adultos. Isso também para mim foi um aprendizado fora de série. Tinha jovens naquilo que não tinham passado certas coisas terríveis que as comunidades passavam. Eles não estavam lá, mas como tinha sido passado, eles contavam. Isso me impressionou, a vida sólida dessas comunidades rurais. E fiz amizades com eles e até hoje eu tenho amizade com alguns desses jovens. Alguns já morreram. Mas foi muito bom, muito importante aquele tempo. Aí ficamos, eu e a Dorothy lá. Os padres foram embora, veio outro. Eles eram italianos, veio um francês. Mas sempre Dorothy e eu nesse mesmo trabalho. Aí começou a organização do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Quando a gente viu que o sindicato estava em pé, e esse jovem que tanto tinha me impressionado na JAC e o pai dele era o presidente do sindicato, eles sabiam o que fazer, eles estavam firmes. Nesse meio tempo a Transamazônica foi aberta. E a Dorothy, que era muito pioneira (eu não), mas ela sim. Então ela disse, vamos Rebeca, bora para lá. Os maranhenses estão indo para lá. Bora nós também. Aí eu demorei mais para decidir, mas fui. Aí fomos juntos também para Marabá. E ficamos na diocese de Marabá. Não na cidade, mas na Diocese. E naquele tempo tinha a Guerrilha do Araguaia. Então outro lugar de confronto. Outra encrenca, né? Não tinha como evitar. Aliás, ninguém estava querendo evitar. E de novo, quanta coisa que a gente aprendeu. Porque eu vou te contar, eu saí dos Estados Unidos, paz e amor. Contra a guerra no Vietnã. Eu lembro, numa reunião, falando que eu estava tentando a paz igual às coisas. E alguém disse, você não tem direito de pedir paz desse povo. Se a única resposta que eles encontram é a luta, mesmo violenta, você não tem esse direito. Aí eu parei e pensei um pouco naquilo. E quando uma vez um grupo do interior veio falar com a gente e disse que estávamos sendo terrivelmente ameaçados, etc. Mas eles iam brigar. Aí eu perguntei. Vocês pensaram nas consequências disso? Porque se vocês partem para a luta armada, vocês sabem que eles são maiores, têm mais armas. Provavelmente o futuro é a morte. E se você morrer, como é que ficam suas famílias? Aí a resposta: ou se morre na luta ou se morre de fome. Mas vamos em frente. Aí eles disseram isso. Mas sabe o que fizeram? Se juntaram, foram lá no batalhão do Exército. Porque o Exército tinha colocado um batalhão em Marabá para combater a guerrilha. E o Exército ajudou eles. Então não tiveram que, naquele caso, não tiveram que partir para a luta armada. Mas houve mortes ao longo do tempo. Houve momentos maravilhosos, houve momentos tristes. P - Dom Alano estava lá nessa época? Rebeca - Era antes de Alano. Dom Estêvão saiu e Alano entrou. Ah, Dom Estêvão, Dom Estevão. A Diocese tinha só 11 pessoas para trabalhar toda aquela imensidão. E eram os franceses, os Oblatos, de Maria Imaculada, nós, eu e Dorothy, americanas, e os brasileiros. Os franceses e a gente éramos muito decididos. E o Dom Estêvão dizia, quando nos reunia, “vocês vão até onde sua coragem leva. E eu apoio” Bom, você se sentia forte com isso, sabe? Aí passa o tempo, passa o tempo, já era no tempo de Dom Alano, após a Diocese ser dividida em duas. Dom Estêvão foi para a outra parte, com sede em Conceição do Araguaia. Um dia, o comandante do Exército foi falar com Dom Alano que ele ia para a estrada, onde eu e Dorothy morávamos, para nos trazer para o quartel. E Dom Alano diz: não, senhor! Eu chamo e elas vêm. o senhor não vai atrás. Então, mandou uma mensagem, não tinha telefone, mas que alguém foi nos avisar para aparecer no outro dia na Diocese. De fato, quando saímos, eles (soldados) mexeram tudo na casa. E a gente já imaginava que isso fosse acontecer. Eles estavam o tempo todo investigando, perguntando. O povo dizia para nós: “os soldados estiveram aqui, perguntaram isso, isso e isso”. Nem vestido de soldado, você não sabia com quem estava falando. Aí fomos para o quartel. Dom Alano, nós e os franceses. O padre brasileiro só tinha um. Ele não foi chamado desta vez, mas, coitado, quando o chamaram, ele apanhou. Nenhum de nós apanhamos, mas ele apanhou. P - Quem era o padre? Rebeca - Padre Baltazar. Era de lá mesmo, de Marabá. Tinha o Frei dominicano, mas ele era muito velho. As histórias de Frei na área indígena, é outro capítulo muito bacana. P - O Mano já estava lá, o Emmanuel Wamberg? Rebeca - Ah, sim, ele era um dos franceses. Emmanuel. Ele é oblato. Um dos padres era o padre Humberto e o padre Roberto. Emmanuel, ele não é mais irmão, mas ele e Roberto ainda vivem. Humberto morreu no ano retrasado, lá no lado francês, perto de Oiapoque. P - Quanto tempo você ficou na Transamazônica, junto com a Dorothy? Depois que a repressão chegou e o bispo não deixou que fizessem nada com vocês, vocês saíram de lá ou permaneceram lá? Rebeca - Ficamos na PA-70 (hoje BR-222). Dorothy foi logo para a PA-150, Arraia, hoje Jacundá, assim que abriu. Eu fui visitar os índios, de lá mesmo, na PA-70. E depois fui nos Aikewara que se chamavam Suruí, os batedores de mato (ou bate pau) para o Exército, durante a guerrilha. Eles também contavam cada coisa para a gente. Eles foram obrigados a ser batedores e ficaram horrorizados. Acham os brancos muito selvagens. Os brancos chamam os índios de selvagens, mas eles acharam os camarás (como eles chamam os não indígenas) de selvagens. Eu conheci o padre Roberto, que atendia eles. Aí eu fui com ele. Lá pelas tantas, eu não me lembro, em 1976 eu fui numa reunião representando o bispo. O CIMI estava procurando gente para trabalhar com os índios. Aí o Dom Alano pediu para eu ir. Aí eu fui fisgada mesmo, porque eu queria, tinha atração muito grande pelos índios. Então, pouco a pouco eu ia saindo da PA-70 para ir nas aldeias, que ficam na região. E a Dorothy foi para rodovia PA-150 que a gente dividiu. Ela saiu da PA-70 e foi para a PA-150. Ela foi morar também com um padre oblato. Eu esqueço o nome dos lugares. Agora chama-se Jacundá mas na época tinha outro nome: Arraia, tinha um igarapé lá, chamado Arraia. Então, quando ela foi morar lá eu já fiquei na PA-70 até que fui morar, em 1978, no Oiapoque. Aí, daí para frente, Dorothy e eu não trabalhamos mais juntas. Mas ficou uma afinidade para o resto da vida e continua até hoje. Eu com os índios e ela na PA-150 com os lavradores. E depois ela foi para o Xingu (assassinada no dia 12 de fevereiro de 2005, em Anapu-PA). P - Quando você mudou, veio para Belém (PA) ou já foi direto para o Oiapoque (AP)? Rebeca - Belém é ponto de convergência, porque a gente só ia para os interiores, mesmo para visitar os Munduruku, qualquer índio, ia pela FAB. Se não estava na beira de uma estrada ou um rio, a única maneira era pela FAB. Então, para o Oiapoque, que não tinha estrada na época, tinha que vir aqui (Belém), marcar e esperar a vez. Então, a gente foi. Mas eu fui morar mesmo, fiquei na aldeia, de 1978 até 1981, aprendendo a língua e escrevendo P - Naquela época, qual era a etnia? Rebeca - Karipuna. P - Vamos falar um pouco de como você conheceu o Padre Nello? Como é que surgiu “O Mensageiro”? Mas pode ir devagar, fale o que tiver de importante nesse caminho. Você foi trabalhar com os Karipuna antes de conhecer o Padre Nello? Rebeca - Na primeira reunião do CIMI que eu fui representando o bispo, o Padre Nello não estava presente, estava na Itália. Na reunião seguinte, que eu fui para a formação (eu queria entrar, mas tinha um período de formação) ele estava presente, mas a gente não criou nenhuma amizade, Já na outra reunião do CIMI ele veio comigo e disse que um cacique estava pedindo a ele uma pessoa para botar a língua falada deles por escrito e se eu topava fazer isso. Aí eu disse, “bom, vou ter que pedir para as irmãs, porque isso significa sair de casa”. E foi assim, ele me chamou em respeito ao pedido do cacique. P - E qual era a língua? Rebeca - É o crioulo. Porque eles vivem na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. Os Karipuna são um povo muito misturado. São remanescentes dos cabanos (refere-se a Cabanagem - 1835/1845) que se deslocaram de Vigia (PA), subiram, e se instalaram na beira do rio Curipi, que fica na fronteira com o Guiana Francesa. O rio Curipi e o Uaçá, que vazam no Oiapoque (que faz fronteira com a Guiana Francesa). Então, naquela região, a língua geral é o crioulo. Os que vieram da cabanagem falavam a língua geral, Nheengatu, há cem anos atrás. Agora eles falam crioulo e o cacique do meu coração, esse cacique, o nome dele Tangarra, ele dizia para o Padre Nello: “esses professores vêm da capital e chamam minhas crianças de burro, porque eles não passam de ano. Eles passam cinco anos na primeira série e não passam. Mas eles falam uma língua que os professores não entendem. E eu quero uma escola em nossa língua, com livros em nossa língua. Tu me arranjas alguém?” A eu fui a pessoa que ele arranjou e começou essa grande amizade. E quando eu cheguei lá, o padre Nello já estava, há sete anos na área. Ele já tinha feito campanha de fossa e filtro. Já tinha iniciado a alfabetização em português. Usou o método Paulo Freire para os adultos que sabiam falar português. Ele estava começando a criar cooperativas para o pessoal vender sua farinha, em conjunto, e não ficar dependendo dos atravessadores. O pessoal que vinha pelo rio (regatão) e comprava barato, vendia caro e revendia as coisas que o povo precisava num preço alto. Mas pior do que tudo isso, muitos se aproveitavam das meninas. A casa que me deram para morar, naquela aldeia, eu fiquei lá sozinha, mas tinha casas no entorno e o pessoal era muito bom. Foram anos maravilhosos morando com eles. Eu tinha que aprender a falar a língua para poder escrever a língua. Aí trouxemos linguista profissional para ensinar o método. P - De onde era esse profissional? Rebeca - Ela veio do Rio de Janeiro. Eu não sei, eu acho que o CIMI Nacional tinha conhecimento dela, era a Ruth Monserrat. E ela era aluna de um outro que eu não me lembro agora, um famoso linguista. Ela era aluna dele e ela andou nos rios conosco, escutou a língua, deu dicas. E a gente, com nosso jeito de trabalhar, sempre em conjunto com o povo, então tinha dez jovens indígenas que falavam as duas línguas. Então eu sentava com eles e decidimos, como é que vamos escrever? Quais são os símbolos que vamos usar? Qual é a regra que escolhemos? Cada som um símbolo. Então C a letra C caiu porque eles falam S e C. Então K fala C e S fala... Então, não tem C no alfabeto em que eu ouço, do jeito que nós fizemos. Agora, o lado francês, eles fazem a gramática e tudo o que eu ouço, mas eles usam, como é que chama, da maneira que se escreve francês. Mas aí é muito complicado porque é três vogais para fazer um som no que o nosso é muito simples, é tão simples que o filho do pajé (que depois também se tornou pajé) que estava já com 20 anos e nunca tinha saído da segunda série, em 15 dias ele estava lendo e escrevendo, porque entendeu. Então foi uma coisa fenomenal. P - Depois que definiu o método, vocês imprimiram cartilhas? Como foi esse processo? Rebeca - Tudo manual. Um dos meus ajudantes, um do grupo de dez, era artista, ele desenhava, ilustrava, aí desenhamos as letras para cartilha, depois mimeografamos. Eu sei que era tudo manual. Muito artesanal. Deve ter sido no mimeógrafo. Os primeiros “Mensageiros” eram assim também. Eu me lembro de ter passado a noite acordada, colando. Não era fácil fazer extensão. Aí quando o computador chegou, mano, primeiro foi um desafio, como usar essa coisa? Era tão novo para a gente. A primeira vez que eu consegui digitar uma coisa, que alegria, foi muito bom. P - Com esse alfabeto em crioulo, facilitou o entendimento? Rebeca - Isso. Aí começaram eles mesmos escrevendo histórias, transcrevendo as histórias do povo, criando novos livros. Aí começaram a sair da segunda série para a terceira, quarta, quinta, etc. O padre Nello estava sempre na luta. Ele não fazia esse trabalho diretamente, mas impulsionava. E outras coisas, como o cooperativismo. Foi muito importante. E aí tinha que aprender. E os que não sabiam ler, mas a matemática tinha que aprender para fazer as contas, para não deixar esse pessoal (comerciantes) enrolar. Aí arrumamos voluntários, disse o Padre Nello, arrumamos voluntários para dar aula para a quinta, sexta, sétima série, para que eles conseguissem fazer o que chamava ginásio, acho que era assim que chamavam na época. Terminou o ginásio, agora o quê? Aí arrumamos voluntários para fazer pedagógico, magistério. Aí veio o pessoal que a gente conheceu ao longo dos caminhos. Sabe, quando se está nesse negócio de Teologia da libertação? A gente conhece muita gente. Aí arrumamos essas duas pessoas fantásticas, que vieram, ficaram lá só nas férias, porque esses indígenas que fizeram magistério já estavam dando aula nas aldeias, porque eles sabiam as duas línguas. Então, eles foram os primeiros alunos para o magistério. Aí veio esse casal (não eram casados, mas homem e mulher, trabalhando com eles). E fizeram assim, por exemplo. Todo dia eles tinham que olhar o jornal, analisar o que passava no jornal. Um dia na semana eles iam para a feira, lá embaixo, e ver os preços e anotar. No outro dia, quando os índios chegavam, uma vez por semana, para vender farinha, vai de novo e vê os preços e vê como mudava. O dia que os índios vêm, os preços são mais altos. Subia. Então, eles aprenderam essas coisas. Então, era um magistério muito completo, muito bom mesmo. E a prefeitura deu o certificado e o pessoal se tornou professores. P - Você lembra o nome desses dois? Rebeca - Era o Agenor João Ferrari, gaúcho. E a Maria Elenira Costa, cearense. P - Essa era a vantagem dessa articulação da igreja. Vocês contavam com pessoas que podiam chamar e que tinham vontade de contribuir. Porque não é todo mundo que queria ir para o campo, principalmente para dentro de uma área distante da sua cidade. Então dependia muito do interesse, da vontade de aprender, de conhecer, né? Rebeca - Os voluntários, na parte do ginásio, tínhamos três rapazes de Minas Gerais, tinham outros de São Paulo. Eram leigos. E era uma associação chamada Leme. A gente conheceu eles através do Verbo Filme (. Você sabe que com o Nello, sempre a comunicação era muito importante, porque o “Mensageiro” já tinha nascido e já estava agindo. Aí começamos fazendo filmes e o Verbo Filmes veio com um desses que trabalhava com a gente, o Luiz Walter, que criou a Leme, de voluntários (Centro de Missionários Leigos, que depois mudou para Associação de Leigos na Pastoral Popular. A sigla Leme ficou como nome fantasia, remetendo ao leme de um barco que iria direcionando os missionários). Era ele que mandava gente para nós. Até hoje a gente se comunica com esse pessoal e essa coisa que começou com a cartilha para o pré-escolar, foi para ginásio e depois para magistério. Agora eles (os alunos indígenas) estão na universidade fazendo doutorado, eles avançaram muito mesmo, mas começou assim, pequenino. P - E como é que vai surgir o “Mensageiro”? Tinha alguma diferença da linha do CIMI? Como é que é o surgimento do “Mensageiro”? Rebeca - Bem, no início do Regional Norte 2, a primeira coisa que se fez foi juntar os povos e os missionários. Então, a primeira assembleia foi em Abaetetuba (PA) e tinha três caciques do Oiapoque (AP) e dois Manduruku, foi o que a gente conseguiu juntar. De missionários tinha um de Marabá (PA), o querido Frei Gil; o velhinho, o famoso frei dominicano que andava pela região do Araguaia, durante a “guerrilha”, que foi muito mais uma missão humanitária de universitários do sul. Frei Gil os ajudava e tinha a confiança dos índios na área. Mas neste tempo (1978-1980), ele já não estava viajando para a área. Acho que foram só esses e nós. Essa foi a primeira oportunidade de missionários e indígenas sentarem e falarem sobre o trabalho no Pará e Amapá. Esses três, do Amapá e dois do Pará, achavam que precisavam de um instrumento para intercâmbio. E o seu Geraldo Lod, que era o mais velho da turma, propôs chamar de “Mensageiro”, porque durante a guerra tinha aqueles pombos mensageiros. Então, o desenho era uma pomba com uma mensagem nas garras. Eu acho que ninguém entendeu o significado, poucos talvez tenham entendido, mas o Seu Geraldo fez e ele foi colocado como o primeiro editor. Isso não foi muito prático, porque ele morava numa aldeia, lá no Oiapoque e devido a distância, era difícil juntar as coisas. Mas a gente andava juntando as matérias e o Seu Geraldo sempre dando a sua opinião. E assim foi o início. No princípio eram somente mensagens de índio para índio. E a gente só fazia o trabalho de digitar, desenhar, mimeografar e enviar. Mas, devagar foi mudando, passou por várias etapas para ser um jornal grande P - Porque já tinha o “Porantim”, que era de abrangência nacional. Vocês fizeram o “Mensageiro” como uma publicação mais local? O “Porantim” era mais dirigido ao povo do entorno e o “Mensageiro”, no início, era só para o diálogo de indígenas com indígena, ou seja, um para fora e outro para dentro? Rebeca - A gente viu como complemento e não contra. O “Porantim” também era mimeografado, não era jornal ainda O Mensageiro começou com meia folha, depois foi para uma folha inteira. Fotografias, essa era a área do padre Nello. Ele revelava a fotografia no banheiro, ele mesmo. E colávamos. Não tinha máquina para fazer aquilo, a gente colava as fotos em cada número. Não tinha grande divulgação no início. Funcionou. Mas pela terceira ou quarta edição já era mimeografado ou fotocopiado. Não sei nem como fizemos naquela época. Não foi assim por muito tempo, mas no início, o primeiro número foi datilografado, depois mimeografado, depois fotocopiado e depois vocês (Suyá, gráfica da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, em Belém, que editava o jornal “Resistência”) ampliaram. Continuou sendo Pará e Amapá. Mas o pessoal próximo ampliou, logo ampliou porque sempre estava tendo assembleias a nível nacional e então a gente oferecia o jornal. Sempre quando a gente ia numa assembleia e sabia alguma notícia de indígenas em outro lugar, a gente botava no “Mensageiro” e isso começou a acontecer com tanta frequência, que talvez você tenha visto no cabeçalho quando virou revista. Mesmo antes, quando era jornal, não era mais de índio para índio, mas que era para os índios, não era restrito a coisa indígena, que a gente teve a liberdade de incluir outras coisas para ajudar na formação. Aí aumentou muito a circulação depois disso. P - E vocês começaram a colocar um pouco o método e a questão da língua. Em alguns números vocês tratavam disso, não é? Rebeca - Isso. Muitas das experiências que o pessoal tinha. Não era noticioso, porque saía só a cada dois meses. P - Uma das coisas que me marcou, vou falar agora como leitor, foram as histórias, vamos dizer das lendas que os indígenas contavam. Teve uma, particularmente, que eu gravei até hoje. A história da cobra e o caçador. Ele foi caçar uma anta, jogou um pedaço para a cobra. Mas ela foi crescendo e cada vez tinha que aumentar o pedaço de carne para alimentar a cobra. Depois que ela ficou tão grande, esmagou a aldeia. Era uma metáfora, uma forma de explicar a relação com a cidade. Como é que a cidade vai engolindo a área rural. Então, essas formas de contar as histórias eu achava muito bacana. Quando eu pegava o “Mensageiro”, ia direto naquela sessão. Rebeca - Pois é. Eu lembro quando era um jornal grande. Os vídeos de outras áreas eram escritos na língua original. Aí a gente pedia, pelo menos, um resumo em português. Mas quando fazia na língua, a gente fazia questão de imprimir. Dava trabalho, sim, porque a gente queria valorizar isso. P - E como foi para vocês terem um espaço físico separado do CIMI? O “Mensageiro” passou a ter uma sede, passou a ter alguns equipamentos. Como foi possível isso? Foi com ajuda? Rebeca - O Nello se virou com ajuda. Sempre fizemos projetos para isso. E nós tínhamos (quando o Padre Nello morreu) videocâmeras, câmeras de alta qualidade. Mesa de som, todas essas coisas de boa qualidade chegaram até o programa radiofônico Pótyrõ (Pótyrõ é do Guarani e significa todas as mãos juntas). também. E agora o Arthur mantém o Potyrõ, mas botou no Spotify, porque ele achou que talvez aumentasse o alcance público. Antes o Potyrõ era só para rádios que aceitavam reproduzir de graça porque a gente não podia pagar para fazer isso. Mas ele (Arthur) achou que o Spotify era uma maneira de chegar mais longe. P - Bom, então vocês iniciaram nos anos 70, que foram muito difíceis; trabalharam nos anos 80, chegaram ao período do fim da ditadura; e o novo governo. Vocês chegaram a dar assistência a quantas comunidades indígenas? Rebeca - Contato primário, presencial, pessoal, todas as etnias de Oiapoque. E agora aumenta todo ano. P - Cite algum desses povos. Rebeca - Os quatro povos do Oiapoque: Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kalinã e Palikur. E no estado do Amapá tem ainda os Waiãpi, mas a gente não tem um trabalho fixo com eles, mas amizade. No norte do Pará tem os Tiriyó, Wayana, Apalai, um bocado de outros grupos que vivem junto com esses três grandes no parque de Tumucumaque. Também a gente tem amizade, mas não tem um trabalho fixo. Eu digo, eu e Nello, pois tinha a Missão dos Franciscanos. Inclusive, os Tiriyó, eu e Nello demos formação para os ministros de batismo e casamento que o bispo reconheceu. E também, devido a esse trabalho com os Karipuna, a gente (eu) já fui nos Munduruku para fazer cartilhas e nos Tiriyó também ajudei. Eu não conheço essas línguas, era só a técnica ajudando o pessoal com isso. Então a gente andou bastante nesse Pará e Amapá. Também no Guamá (Tembé), é outro drama com a antiga fazenda do Mejer Kabacznik. A gente foi na aldeia e o pessoal estava todo fechado. Isso depois da ditadura. Os fazendeiros com a violência. O pessoal com medo e alguém denunciando a gente e outros protegendo a gente. Eles (fazendeiros) culpam a gente se os índios reagem. Eu e Nello somos apontados como culpados por isso. Mas, é assim mesmo. Nos Aikewara também. O pessoal da Funai foi uma vez para buscar a gente nos Aikewara. Aí nos avisaram “vem gente a galope, a polícia está vindo, a polícia está vindo”. Aí a gente bem tranquilão, fala com o cacique: “se você quer que a gente saia, a gente sai. Se você não quer, nós ficamos”. Aí a polícia chegou e disse que a gente tinha que ir junto com eles. Um dos índios disse: “eu vou também”. Entrou no carro e foi até São Domingos da Araguaia. Aí a gente disse para a polícia: “deixamos as nossas bagagens aqui, queremos passar lá e pegar”. Aí o carro parou na casa dos padres, a gente foi pegar as malas e avisar: “olha, se a gente sumir, vocês sabem onde fomos”. Mas quando a gente saiu, o índio tinha observado que os policiais tinham tomado umas e outras (bebidas). Aí o índio disse: “tu não pode levar o padre não, porque eu vi que vocês fizeram”. Aí não levaram mesmo. São essas coisas assim. Então a gente andou muito nessas áreas. Com os Aikewara a gente tinha uma afinidade muito grande. Nós tivemos uma experiência muito intensa e profunda com eles: Evangelização a partir de imagens em cartaz, explicações e teologia a partir dos mitos. E os antigos, após um ano e meio, a aldeia toda se batizou com todos os símbolos de seu povo. Foi maravilhoso. Eles haviam pedido batismo logo que a gente os conheceu. Foi dito para eles que índio não é gente. Eles entenderam que assim seriam camará (como os não índios) se fossem batizados. Mas nós dissemos que Deus os queria Aikewára mesmo. Nós pedimos: contem as histórias de vocês sobre Tupã; como surgiu o mundo e vocês aqui. Resposta: não sabemos, quem sabia morreu. Como demoramos em realizar o batismo, tentando conhecer melhor sua cultura e a base de sua fé, eles pensavam que nós achávamos que eles não fossem bons o bastante para ser batizados. Aí sentávamos muitas noites olhando as estrelas e perguntando, tentando absorver mais do que eles são. Com esta dúvida deles, resolvemos iniciar logo com a Bíblia em quadros. Foi maravilhoso. Primeiro quadro: a Criação com todos os animais. Aí todo mundo falando de uma vez, olhava mais de perto, dizendo este animal nós temos aqui, esse não. E aí começaram a contar os mitos da criação. O dilúvio com Noé, tem um mito paralelo a este também. Este processo continuou por muito tempo. E nisso a memória coletiva foi retornando. E a celebração do batismo – e todas outras, tudo com símbolos e gestos de sua cultura. No primeiro e grande batismo todos pintados, inclusive Nello e eu: ele de onça, eu de um passarinho. E todos eles. Foi lindo, puro, simples. O velho pajé radiante lembrando os gestos e símbolos, o povo feliz da vida por perceber que seu ser Aikewára vive. Foi por conta desta experiência forte que se criou um laço muito especial entre nós. Depois de Frei Gil ninguém havia manifestado tamanho respeito e apreciação para com sua cultura. Padre Roberto, dos Oblatos, respeitava, visitava, mas, além da questão da língua, não tinha tempo suficiente para se dedicar ao processo. P - Naquele momento, lá na Transamazônica, que vocês começaram a fazer esse trabalho, você chegou a sentir medo, algum momento? Rebeca - Medo não, vontade de desistir nunca. Mas lembro de uma vez quando eu fiquei nervosa, me deu uma diarreia desgramada. Foi no quartel que a gente foi passar o dia, naquela vez que o comandante ia mandar nos buscar e dom Alano levou a gente. O comandante disse: “agora você pode sair da sala (do quartel)”. E Dom Alano disse: não, eu não saio daqui enquanto eles não saírem. E ele se plantou. Aí a gente estava lá. Eu confesso, esse dia meu coração estava assim. Aí ele perguntou: “como é que vai ser?” Porque tinha os três franceses, Dorothy e eu. E o comandante que falava muito bem em inglês disse: “Ladies first”: primeiro as damas. Então era Dorothy e eu. Dorothy começou. Eu, sentada lá, aí veio a diarreia. P - Mas você não via o depoimento da Dorothy? Rebeca - Nós duas estávamos na sala e os homens fora. Eu estava numa cadeira e ela na mesa com o comandante. Eu não sei quem era o comandante, não sei quem também estava fazendo a interrogação. Aí eu pedi para ir ao banheiro. Um soldado me acompanhou, porque a porta nem fechava direito e foi feita para homens, mas tudo bem. Aí eu escutei ele falando as coisas com a Dorothy e eu disse: “meu Deus”. E fiquei tão impressionada, porque tinha pilha de documentos. Ele puxava, você conhece isso? Eu disse, sim. E Dom Alano tinha dito para nós: “qualquer coisa que eles perguntem digam que o bispo mandou”. Então o interrogador disse, por que isso? Eu respondi, bom, é da Diocese, coisas que a gente faz, os direitos humanos, uma cópia dos direitos humanos da ONU. Aí ele fez uma pergunta, outra, eu sei que a gente respondeu tudo. Aí fomos esperar os homens e Dom Alano. E saímos. Naquele dia eu fiquei nervosa, mas não consegui desistir. Porque eu sabia que outros já tinham passado por aquilo. O rapaz que trabalhava conosco, um seminarista, pegaram ele no carro, encheram a boca dele com papel higiênico, sufocando ele. Ele não morreu, mas o padre Baltazar apanhou. O padre, que trabalhava direto com Dorothy, o Florentino Maboni, sumiu. Simplesmente sumiu. Quando descobrimos ele estava no Rio Grande do Sul. A Dorothy e eu resolvemos ir lá visitá-lo, cinco dias de viagem para chegar lá. Mas chegamos. Quando fomos ao hospital, a barriga dele estava tão inchada. Aí uma lágrima caiu assim. E ele disse, eu acreditei neles. Ele acreditava nos militares. Ele achou que a gente era doida. E essa decepção ele sofreu. E nunca mais se ouviu falar nele.. Só aquele dia no hospital. P - Nós publicamos uma matéria no “Resistência” quando ele foi preso. Outra coisa que eu queria lhe perguntar: quando vocês precisavam viajar, usando os aviões da FAB, os militares faziam algum interrogatório para saber quem eram vocês, o que iam fazer? Tiveram algum problema nessas viagens? Rebeca - Com a FAB nós não chegamos a ter problema. Chegou um momento que não tinha mais possibilidade. Cortaram até os voos da FAB e agora são bem menos do que eram naquele tempo. Eram muitos porque não tinha outro meio de transporte. Não tinha estrada para chegar lá. P - Os Tiriyó ficam próximos da Guiana? Rebeca - Isso, Suriname, que era Guiana holandesa. Aliás, os índios mostraram pra gente onde tinha um avião de garimpo, do lado de lá, mas é só uma coisinha no meio. Eles desconfiavam que a pessoa estava garimpando do lado do Brasil. E tem nos Tiriyó, uma base militar, mas a gente não conseguia ir lá com os militares. Então, quando o Dom Bernardo pediu a Nello e eu, ele fretou um avião para a gente ir lá. Aí, Nello adoeceu lá e não tinha como tirar ele. A gente tinha que tratar ele lá mesmo, ninguém sabia o que ele tinha. Mas, tudo passou, toda a gente viveu. Ele é bom. P - A senhora conviveu com a irmã Adelaide Molinari? Caso afirmativo, fale um pouco sobre a atuação dela e se os trabalhos de vocês se relacionavam. Rebeca - A irmã Adelaide eu a conhecia das reuniões da Prelazia, em Marabá. Quando nós nos reuníamos, a maioria era de agentes pastorais e as irmãs das nossas congregações. A nossa era uma, a dela era outra (Congregação das Filhas do Amor Divino). A mais calma e tranquila era a irmã Adelaide. Quando ela foi morta eu comentei que parecia impossível que uma pessoa tão simples poderia ser alvo de um atentado. Só que pelo que nós ficamos sabendo, o pistoleiro estava mirando o lavrador (Arnaldo Ferreira) com quem ela estava conversando. A bala era para ele, passou por ele e atingiu a artéria dela. Não trabalhei com ela, não convivi com ela. Mas a conhecia dessas reuniões e tinha grande admiração pela congregação que ela fazia parte, “As filhas do Amor Divino”. Eu não sei se essa congregação ainda continua em Marabá. Penso que não, pelo tempo que elas estavam lá. Trabalhávamos com os oblatos, primeiro Dom Estêvão, depois Dom Alano. A Prelazia foi dividida. Dom Estêvão ficou em Conceição e Alano foi para Marabá. P - A senhora também conheceu o padre Josimo Tavares? Caso afirmativo, fale da sua relação com o trabalho dele. Rebeca - Não o conheci pessoalmente. Todo mundo ouvia falar dele, pois era bem conhecido em Marabá, que fica próximo do Maranhão onde ele atuava. A relação com o trabalho dele era pela união dos que estavam do lado dos lavradores e denunciando os desmandos dos latifundiários. A irmã Dorothy mandava a gente estudar a lei e por isso éramos muito próximos de Josimo porque ele também fazia isso, defendia a lei e aí veio as consequências (morto dia 10 de maio de 1986, em Imperatriz-MA). P - O Mano Wamberg era um dos religiosos, da ordem dos Oblatos, que trabalhou na mesma época em que a senhora e a Dorothy foram chamadas no quartel em Marabá. Fale um pouco do que a senhora lembra do trabalho que ele (e seus outros companheiros) faziam naquele tempo da ditadura. Rebeca - Mano ou Emanuel, meu querido irmão. Ele nunca foi padre, era irmão. Trabalhava com o padre Humberto e Roberto, também Oblato. A gente cruzava caminhos, sempre no mesmo combate, na mesma luta em defesa da emancipação dos lavradores. Quando eu comecei a trabalhar com os indígenas eu passava em São Domingos, região da Guerrilha do Araguaia, e a gente sempre falava com o Roberto, Humberto e o Mano. Quando a gente foi chamado a depor no Quartel de Marabá, eles também foram chamados. Então, a gente tinha essa ligação assim, nesse sentido, fazendo parte do trabalho de uma mesma equipe. São pessoas finas até hoje. O Padre Humberto já se foi e eu não sei se o padre Roberto ainda está vivo. P - Como a senhora classificaria o trabalho do frei Gil de Marabá? Rebeca - O Frei Gil era uma pessoa doce, bacana, formada na França. Trabalhava com a cabeça, com o coração, muito inteligente, mas dono de uma simplicidade fora de série. Gostava de brincar com as crianças, corria com elas, mesmo já idoso. Eu amava esse Frei Gil. Aprendi muito com ele também. Quando eu fui à aldeia pela primeira vez, ele me deu os melhores conselhos. Ele é um monumento histórico. Ele não estava lá para converter mas para que as pessoas tivessem vida e vida em abundância, vida tranquila. Pelejou, pelejou por isso, do seu jeito. Ele já era velhinho quando eu comecei. Era uma figura sempre admirada. P - A senhora, sempre que pode, vai visitar sua irmã e sobrinhos nos Estados Unidos. Mas não se acostuma a viver lá? É por causa do frio? Rebeca - Eu amo aquela terra, é muito bonita, terra onde os meus pais nasceram e todos estão enterrados lá nos Estados Unidos. Meu avô, meu pai, minha mãe e agora minha irmã. Meu irmão está procurando um outro lugar. Nós, irmãos, somos muito unidos, nós três. Agora somos só dois, o meu irmão é mais velho e eu a mais nova. Nós (Irmãs de Notre Dame) temos uma regra: quem mora fora do país, a cada três anos, visita a família. Antigamente não tinha essa regra. As irmãs brasileiras visitam suas famílias a cada ano. O objetivo é que cuidemos também dos nossos pais quando precisam de nós. Mas no período da Pandemia da Covid 19, nós ficamos sem fazer visita por mais de três anos. Logo depois eu fui, mas como a minha irmã caiu e adoeceu eu voltei novamente para ajudar a filha dela, minha sobrinha. Minha irmã curou do câncer no intestino, mas passou para o fígado e não tinha mais jeito. Então eu fui para ajudar e fiquei muitos meses. Mas voltar lá para morar, não. Eu amo minha família. Quando eles precisam, eu faço um esforço e vou. As irmãs da congregação são muito compreensivas, ajudam, apoiam. Então, não tenho falhado com a minha família, mas quando eu estou lá, eu falo, penso e sonho em português o tempo todo. Eu tenho certeza que não se esquece a língua materna e eu quando eu estou lá, falo inglês, mas às vezes eu fico procurando uma palavra em inglês e não consigo encontrar. É assim, eu sou muito ligada no Brasil, mas amo muito o meu lugar. Quando estou lá, eu não dirijo (carro) e então eu não ajudo nessa parte. Eu fui passar um mês, mas acabei ficando até que minha irmã partisse para o céu. E depois fiquei ajudando minha sobrinha a cuidar das coisas que têm que ser feitas, depois que alguém parte. Fiquei mais dois meses. E aqui estou de volta. Mas não é a questão do calor, apesar de não me acostumar mais com o frio, pois na linha do Equador, no Oiapoque, eu já estou mais aclimatada. Quando eu estou lá é como se estivesse num país estranho. Eu não sei me virar lá. E eu vivo pensando (quando estou lá), poxa, se eu estivesse no Oiapoque eu saberia onde resolver isso ou aquilo. Mas não é só isso também. É porque o Brasil é o meu lugar, é o povo daqui (não só os indígenas), são os moradores de rua, que são pessoas que são como a minha família, as missionárias, porque a nossa Missão não é só o Evangelho, é isto sim, proclamar o Evangelho com certeza, só que a Boa Nova de Jesus é que todo mundo tenha vida em abundância, viver bem, então ao mesmo tempo que a gente prega o Evangelho, a gente está combatendo as injustiças. Então eu sei viver isso bem lá (Oiapoque), sei viver isso melhor. Esses meses que passei lá (EUA) eu estava horrorizada. Eu sabia quem ganhou as eleições (Trump) e assim como alguém falou aqui no Brasil sobre o Bolsonaro, se tivesse só ele concorrendo e um poste de luz, eu votaria num poste de luz. A mesma coisa acabou sendo sobre aquele que acabou sendo eleito (Trump). Ele está mandando fazer coisas contra as leis do País, a constituição norte-americana. E por isso eu às vezes me achava elogiando o Brasil porque colocou o Bolsonaro na cadeia e o povo de lá deixou aquele mesmo maníaco assumir a presidência outra vez. Mas não é só isso. Aqui no Brasil, como lá nos Estados Unidos, não é só o presidente; o presidente não governa sozinho, ele tem que trabalhar com o Congresso, pois é o Congresso que faz as leis. Então o presidente faz um decreto e o Congresso corta. Então tem que aprender a votar melhor. Isso eu digo tanto aqui como lá. É triste como aqui no Brasil imitam as piores coisas de lá, como aquele quebra-quebra do Capitólio, que aconteceu lá, dia 6 de janeiro (2021) e dois anos depois aconteceu aqui, no dia 8 de janeiro. Então imitar o que tem de pior, é demais. Então eu digo, nós que temos a missão de espalhar a luz de Cristo, temos que ter mais consciência em ajudar o próximo a votar mais conscientes. E os partidos que têm mais consciência, deveriam estar preparando pessoas para tomar conta do País. Estou falando das coisas daqui (Brasil), mas creio que deve ser a mesma coisa para lá (EUA). Têm pessoas valiosas, mas os partidos ficam sempre com os mesmos, os mesmos. O povo não cresce, não aprende, não tem trabalho de base. A política não é tudo na vida, mas influi muito mesmo. Eu penso que nós, que somos missionários, temos que ajudar nisso. Então o meu apego ao Brasil é por muitas coisas. Quando estou nos EUA tento ser missionária também, eu visito as pessoas, tento ajudar as pessoas com um abraço, um sorriso, fazer as pessoas se sentirem bem. Nessa idade, eu não estou mais para começar novas aventuras. Eu estou só tentando fazer o que Jesus mandou: amar a todos e fazer com que eles possam pensar e refletir; fazer o que a nossa fundadora nos disse: ensinem a eles tudo o que eles precisam para viver direito e bem. P - A senhora não consegue mais viver longe das comunidades indígenas do Norte do Brasil? Rebeca - Eu morro de saudade deles, é verdade, mas também morro de saudade da minha família quando eu estou aqui, porém eu estou aqui bem mais tempo, a maior parte da minha vida é no Brasil; é aqui que eu sinto que posso ser muito mais útil, servindo muito melhor do que lá nos Estados Unidos. Então é isso que me faz voltar. Quando alguém pergunta se eu nunca vou voltar pra lá, eu respondo: não está nos meus planos, porém o nosso número de irmãs aqui é pequeno e, se chega ao ponto que elas não dão conta de cuidar da gente e eu não dou conta de cuidar de mim mesma, aí sim, eu iria pensar seriamente em voltar para lá, porque lá eu sei que lá elas (as irmãs) sabem cuidar, têm condições. Mas eu preferiria ficar aqui até morrer e ser enterrada na terra que eu considero a minha terra. Mas isso só Deus sabe, o dia da morte e as condições da morte, só Deus sabe e eu estou tranquila, de um jeito ou de outro. P - A demarcação das terras indígenas é a principal garantia para que as comunidades mantenham as suas identidades culturais? Rebeca - Sim, a principal garantia legal, defendida pela Constituição. Porém, todos nós sabemos, aliás, o CIMI tem trabalhado arduamente em cima dessa questão. Em boa parte do trabalho do CIMI na educação do povo, na formação e educação informal, conscientização, não é só sobre a importância da demarcação das terras indígenas, mas também sobre os direitos e os direitos de reclamar e exigir que seja cumprida a lei. Sim, tem que ter a demarcação hoje em dia, embora um pouco viole a alma indígena, que não trata a terra assim, colocando limites, mas é a única maneira de garantir o domínio (do território) e estabelecer um limite com os não indígenas. Mas, embora a lei garanta isso, pela Constituição, muitas vezes esse direito é ignorado por completo. E não só por fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, mineradores, mas até por oficiais e pessoas de instituições governamentais que deveriam estar defendendo isso, protegendo a terra indígena, até esses ignoram a demarcação, pisam em cima e vão em frente. Além de tirar a garantia de demarcar e devidamente documentar a terra. Mas além da demarcação, tem que haver uma união entre os povos indígenas, que exigem o cumprimento dessa lei e de combate aos invasores que tentam diminuir a força das terras demarcadas, como o Marco Temporal. O Congresso tenta mudar, fazer emendas na Constituição para que essa legislação não perdure, seja derrotada e até permitir que as terras indígenas sejam legalmente ocupadas. Isso já está acontecendo, só que os indígenas e seus aliados têm que ficar combatendo e resistindo, porque não podem fazer esse caminho. E para que isso aconteça, tem que segurar firme e forte os valores dos antepassados, porque, na medida que o mundo moderno encanta os mais jovens (e alguns dos mais velhos também) fica muito fácil eles largarem isso de mão, fazer acordo de parte a parte. É preciso ficar firme em cima do princípio. Agora a gente sabe também que tem que ter estratégia, flexibilidade, mas tem que ter firmeza. O que protege a vida, a cultura e a identidade indígena, é manter a união entre o seu próprio povo (que é super importante). Quando o inimigo consegue dividir o povo, aí ele vence. Então não pode permitir divisão entre o mesmo povo. Isto tem acontecido e está acontecendo em alguns lugares; e é terrível, porque enfraquece demais aquele povo, aquele território. A outra coisa é que tem que ter união entre todos os povos porque cada povo por si é mais fraco, pequeno e tem que ter os outros dando força e apoio. A gente vê hoje em dia, pelo menos aqui no Oiapoque, as pessoas só sabem se defender e se defendem de duas maneiras. Primeiro, raríssimas vezes por confrontação, pois eles preferem negociar, conversar, chegar a um acordo em paz, conviver. Segundo, quando não conseguem chegar a um acordo que respeite os direitos deles, aí eles passam para um confronto mais rígido, bloqueando a estrada, que é a única estrada que sai daqui para o resto do Brasil e chega até Macapá e esbarra no rio. Aí tem que pegar um pedaço aéreo. Mas fechar a estrada é uma coisa muito séria. Mas às vezes eles fazem isso também: se juntam e vão a Brasília, etc. Uma vez, eu me lembro, a gente voou com uma carrada cheia deles para o Nordeste, onde Chicão Xucuru (José Bispo dos Santos uma das principais lideranças Xucuru em Pernambuco, foi assassinado em 1998, líder central na luta pela demarcação de 27.555 hectares de terras na Serra do Ororubá) foi assassinado e os povos aqui do norte do Pará e do Amapá fomos até Pernambuco dando forças para aquele povo. Então essa solidariedade é super importante até porque parte disso vem do passado: Tudo não é competição e sim colaboração, é ajuda mútua, união. Isso vem do passado. Também vem do passado as disputas entre os indígenas, disputas por vários motivos, mas foi aprendido, ao longo dos anos, que é mais importante estarem juntos e unidos e não divididos. Tudo isso é para reparar que se a demarcação é muito importante e é a principal garantia da lei, mas a garantia maior é a luta para que essa lei seja respeitada, e não seja substituída por outra frouxa e que a união entre os povos e dentro de cada povo é que é a maior garantia de proteger essa lei, que por sua vez deveria estar protegendo os territórios indígenas. P - Como a senhora reage à política de perseguição aos imigrantes nos Estados Unidos da América? Rebeca - É uma desgraça. É uma política contra todos os princípios que aquele país foi fundado. É contra o que está escrito na estátua da liberdade, que abre os braços para acolher os de fora. “Deem-me os cansados, os pobres, as massas amontoados que anseiam por respirar em liberdade”. É contra a realidade, pois o País inteiro nasceu de imigrantes. Não só o que está sendo feito, mas a maneira como está sendo feita. E outros horrores que os Estados Unidos estão fazendo agora, iniciando guerras, bombardeando (embarcações) no mar do Caribe. Pode até ter tráfico de drogas, mas isso não dá direito a isso. Os imigrantes nos Estados Unidos, eu sei que os brasileiros que migram para lá, às vezes em busca de um melhor tratamento de saúde para uma criança doente, mas eles assumem trabalhos, serviços que os norte-americanos não querem, não fazem. A mesma coisa os mexicanos que trabalham em atividades como abate de animais. Os americanos não querem trabalhar aí. Tem uma cidadezinha, perto da minha cidade, que a maioria dos trabalhadores que desempenham os trabalhos mais difíceis são haitianos. As autoridades vão lá e limpam as coisas. A economia do município está em queda porque precisam do trabalho desse pessoal que vem em busca de viver e viver feliz. Estou enojada com isso, desapontada, decepcionada com o povo americano de não reagir com mais rigor. Agora vejo também que quando reagem, são mortos também, como foi o caso de duas pessoas, em uma semana, em Minneapolis. Têm pessoas que estão com todos os seus documentos em dia e não são respeitados por esse pessoal que trabalha para a polícia especial para imigração. Estão recrutando pessoal que não tem a menor preparação para isso, mas ao contrário, são super violentos, fazendo coisas que à polícia civil não é permitido fazer. É terrível, dá nojo e tristeza, uma tristeza enorme. É como a minha irmã (falecida ano passado) diz: pela primeira vez eu estou com vergonha do meu país. A paróquia onde nós frequentamos, tem 60 por cento de seus membros de origem latina. A maioria fala espanhol, tanto que cada missa é em duas línguas; uma em inglês e outra em espanhol. Existem boletins nas duas línguas; livros de canto nas duas línguas. A ICE deu duro lá, tanto que o pároco pediu ao bispo para falar na televisão que o povo é dispensado de ir (para a igreja) enquanto a ICE está atrás deles. As crianças estão perdendo aula, com medo de ir para a escola e ser pego. Eu sei que tem pessoas de justiça e paz que promovem abaixo-assinados, cartas para os seus senadores, para seus representantes, porque ICE depende muito do Congresso. Não é só o Presidente (da República), ele é um horror! É, mas ele não faz sozinho, se o Congresso barrasse, isso ia parar; a mesma coisa o supremo. Metade está vendo a Constituição, metade está esquecendo, tratando ele (Trump) como se fosse o imperador do mundo, que é o que ele quer ser. P - Qual dos bispos que presidiram o CIMI a senhora guarda uma lembrança mais afetuosa, pelo empenho que tiveram no fortalecimento do Conselho Indigenista Missionário? Rebeca - Muitas vezes eu tenho dito e dou graças a Deus porque tivemos bons presidentes do CIMI, em todos estes anos. Heróis mesmos, homens muito ativos outros mais calmos, mas todos eles, super fieis aos princípios de Jesus Cristo, da Igreja, do CIMI. Primeiro Dom Tomás Balduíno, que antes do CIMI estava na CPT (Comissão Pastoral da Terra). E ele sempre teve uma forte postura em relação aos direitos humanos, justiça, paz, igualdade e libertação. Ele foi sempre um exemplo de dignidade. Dom Aparecido também foi maravilhoso. Dom Erwin Krautler, atual bispo emérito do Xingu, é uma figura excepcional, Pode ser porque ele ficou mais tempo, foi eleito duas vezes. Talvez isso deixou mais marcas porque ficou mais tempo, e eram tempos difíceis. Desde o tio dele, Dom Eurico, bispo do Xingu, que também se preocupou muito com os indígenas. Dom Erwin aderiu a essa causa com muito afinco. Ele sofreu perseguição, desde 1983, quando a polícia militar o jogou no chão. Já como presidente do CIMI sofreu um acidente de carro que todo mundo pensa que não foi um acidente, mas uma ação planejada para assassiná-lo. Ele não morreu mas ficou muito machucado. Ele sofreu mas não arredou pé, sempre firme e forte sempre. E também é uma pessoa que canta e toca violão. E depois porque ele mora perto da gente. A gente via mais ele, que trabalha de uma forma sem clericalismo, um companheiro de lutas, oração e amigo. E o atual presidente do CIMI, que também é presidente da CNBB, Dom Leonardo Steiner, homem firme e forte. Quando apresentou o relatório sobre a violência contra os povos indígenas em 2025 (no dia 13 de agosto de 2026) falou magistralmente. São pessoas que a gente se identifica, aprecia e reconhece como pilares da igreja. E não poderia deixar de fora os bispos que nos acolheram (eu e a Dorothy), quando viemos do Maranhão para o Pará, como foi o caso de Dom Estêvão Cardoso de Avelar, bispo de Conceição do Araguaia, e Dom Alano Maria Pena, bispo de Marabá, que foi muito firme e solidário conosco na época da Guerrilha do Araguaia. Guardo uma frase de Dom Estêvão: “vai até onde tua coragem te leva”. E ele apoiou sempre o nosso trabalho pastoral. P - Fale sobre saúde indígena e aumento da população nas aldeias do Amapá. Rebeca - Eu não tenho um quadro aqui comigo sobre a saúde da população, mas posso dizer que aumentou muito mesmo. Nos primeiros encontros que a gente fazia com as lideranças, tinha 12 caciques e somando todos, talvez a gente chegasse a 30 pessoas, no máximo. Não tinha estrada naquela época. Tinha os três rios dentro da reserva e o rio Oiapoque que faz fronteira. Além dos rios, tem os igarapés. Hoje tem 67 aldeias, 67 caciques. Cada cacique tem seus conselheiros e cada aldeias têm seus líderes em educação, saúde e juventude. As aldeias grandes ficam sobrecarregadas e o povo está abrindo novas aldeias, tanto nas margens dos rios ou na beira da estrada. As famílias estão tendo menos filhos. Quando eu estava lá, entre 1978 e 1980, a maioria das famílias tinha de 9 a 15 filhos. Hoje em dia, são dois ou três filhos. Mesmo assim, aumentou a população. Em termos de número a gente falava em ter de 1.800 a 2 mil indígenas. Hoje em dia tem 10 mil e, provavelmente, pode ser que tenha até mais. Ainda tem uma mistura de indígenas e não indígenas. Uma coisa que mudou muito é que o pessoal das aldeias, muitos estão indo morar na cidade. A gente ainda nem conseguiu fazer um levantamento para ver quantos estão na cidade. Mas alguns estão na cidade só para estudar e depois voltam para a aldeia. Mas outros estão vindo porque se encantaram com a cidade, apesar de ser muito menos seguro, muito menos sadio, mas é um fato. P - As exigências sociais que resultaram em investimento na infraestrutura e em políticas públicas voltadas à saúde ajudaram a reduzir o número de mortes nas aldeias indígenas da região? Rebeca - Sim, Paulo, sem dúvida. A melhoria na vida deles ajudou a salvar vidas de crianças. Também a aproximação ao hospital ajudou, assim como o transporte indígena, que garante um atendimento mais rápido e assíduo nas aldeias. As aldeias mais distantes, têm médicos, periodicamente atendendo. O índice de morte infantil é bem mais baixo do que era antes. E também de mulheres que morriam de parto. Agora é muito raro. O que ainda preocupa é a deterioração da dieta alimentar. O consumo de coisas industrializadas está dando muita glicemia, muitos casos de diabetes. Antes os indígenas não consumiam tanto doces, como refrigerantes, biscoitos. Mas em geral, os benefícios na área da saúde ajudaram a prolongar a vida dos idosos e a salvar a vida de crianças. E também as campanhas de vacinas ajudaram muito, assim como a chegada da vacina até onde eles estão e não depender deles irem até a cidade. Ocasionalmente tem um médico indígena karipuna, que traz colegas de Macapá para as aldeias, especialistas em diversas coisas e eles oferecem seus serviços. Então, tem muitas coisas de melhorias nos últimos 40, 50 anos, que estão salvando vidas. P - E os trabalhos e campanhas do CIMI e em particular do Padre Nello? Rebeca - As condições sanitárias foram uma das primeiras coisas que o Nello fez: a campanha de fossa e filtro. E depois entrou a inspeção dos poços. Porque quando eu estava morando lá, o poço principal, onde todo mundo retirava água, todo mundo estava pegando ameba. E a ameba também pode ser fatal, dependendo do tratamento. E na medida em que as autoridades se conscientizaram (foram chamadas por nós e pelos indígenas), então melhorou muito mesmo as condições sanitárias. Depois de fossa e filtro, fossa externa com banquinho de banheiro individual, tanto para adultos como para crianças. Aos poucos, também, quando começou a ter eletricidade e bomba d’água, passou a ter água dentro de casa, mas não beneficia a todos. Porém, a maioria passou a beber água de poço e água passou a ser monitorada, ocasionalmente, pelos agentes de saúde. E nas aldeias tem enfermeiros e agentes indígenas de saneamento. E quando alguém faz uma fossa, eles vão até lá para dizer a distância, para não contaminar os poços. Então essas coisas estão bem melhor assim. E também a consciência dos povos para a necessidade de higiene. Exemplo: quando estava tendo festa e todo mundo comia na cozinha comum, tinha uma mesa comprida, mas não cabia todo mundo de uma vez e muitas pessoas comiam em pé, rapidinho. Terminando, deixavam os pratos lá e outros vinham e comiam. Então, lógico, isso não era muito higiênico. Hoje em dia, tem um balde de água, uma cuia, cada um lava o prato e coloca na mesa. Antes, as crianças sentavam no chão, na casa, e comiam, tudo de uma bacia de comida. Se um estava doente, rapidamente todos adoeciam. Mas agora o pessoal incorporou algumas modalidades de higiene, tanto que eles sofreram muito pouco com a covid, durante a pandemia, mas em porcentagem menor do que o resto da população do Oiapoque. Então eles tinham aprendido a cuidar disso. P - Em Coroatá a senhora relatou que cantava melhor que a outra irmã. A senhora teve alguma formação de canto? Rebeca - Eu e a Dorothy andávamos juntas. Ela amava cantar, mas não conseguia segurar a melodia. Tivemos a mesma preparação que toda a escola de NDDEN e também a nossa formação inicial como irmãs. Só que eu conseguia pegar a nota, tom e melodia e a DOT não, isto é, não completamente. Por isso, em nossa equipe, eu era a cantora. P - Quais os seus autores de literatura? Rebeca - O primeiro livro, em português, que eu li foi “Meu Pé de Laranja Lima” (de José Mauro de Vasconcelos) já no final do curso na Escola de Línguas. A gente só aprendeu a falar, pois a escola não nos ensinou a ler. A gente aprendeu a ler e escrever por conta própria. Era um desses livros bacanas que tem uma moral tipo as fábulas de Esopo. Depois li um livro de Érico Veríssimo, talvez o “Incidente em Antares”. Gosto de ler livros de biografias, como foi o caso de Nelson Mandela, depois que ele deixou a prisão, na África do Sul. Gosto de um livro sobre Barack Obama. Depois, quando me dediquei à causa indígena, passei a ler mais textos de linguística e antropologia. Li diários de missionários que conviveram com os indígenas. Aprendi que cada cultura é única e que não tem regras universais para todas as situações e que temos que ter a paciência de aprender. P - A senhora conheceu a obra de Paulo Freire aqui no Brasil ou nos Estados Unidos? Rebeca - Conheci aqui no Brasil a obra e ele pessoalmente. Aderi a metodologia dele, a razão de sua metodologia e virou referência para mim e todos os nossos irmãos. A gente o convidava para reuniões e discutia coisas com ele, pois era um amigo e um guia. A gente debatia as coisas sobre os povos indígenas, suas línguas e diferenças. Era uma pessoa fantástica e sua metodologia também, bem como o que está por trás da sua metodologia: a causa, a razão. A Pedagogia do Oprimida, a Pedagogia dos direitos humanos e a Pedagogia da Libertação. Nos Estados Unidos ele estava virando referência lá também. P - A senhora leu alguma obra de Darcy Ribeiro? Rebeca - Sim, ele também é referência para todo mundo que mexe minimamente com Antropologia e todos nós do CIMI mexemos bastante. O Darcy Ribeiro é referência também. Ele era uma pessoa admirável, um excelente pesquisador e escritor. P - E as bulas e encíclicas dos Papas? A senhora se interessou por alguma delas? Rebeca - Até o Papa Francisco eu não me interessava muito pelos textos oficiais como encíclicas, bulas, etc. Só a partir do Papa Paulo VI, que publicou o texto Evangelii Nuntiandi, de 1975, que trata do modelo de colonização cultural pelo respeito às culturas locais. Esta era a base de preparação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Amei tudo que o Papa Francisco escreveu. A Alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium) ajudou muito a igreja fazer celebração na área indígena. Foi maravilhoso para quem está trabalhando com as comunidades. Também gosto muito da encíclica Tutti Fratelli (todos irmãos) sobre o amor fraterno e sua dimensão universal. Este último documento me tocou profundamente porque ela atualiza a parábola do Bom Samaritano, de Jesus. Logo que chegamos ao Brasil, os primeiros textos e livros de teólogos e pensadores cristãos que nos foram apresentados: Gustavo Gutierrez, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino. Em seguida, tivemos contato com a escrita de Clodovis Boff, Leonardo Boff, Frei Beto e Rubem Alves. Cleros e bispos que admiro e também cujos escritos eu li e acompanhei: Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Cláudio Hummes e Dom Oscar Romero. P - Que mensagem a senhora daria às jovens lideranças indígenas do Brasil e da América Latina? Rebeca - O Brasil e a América Latina têm uma variedade de realidades tão diferentes, por isso acho difícil pensar em uma mensagem que sirva para todos. Para os quatro povos que eu conheço mais, com quem eu tenho andado por mais de 40 anos, e mesmo entre eles, cada um tem as suas especificidades, mas em geral eu digo: em primeiro lugar, obrigado, gratidão por cuidar tão bem do nosso lar comum, a Terra. Os que se preocupam com ela, vocês que a defendem, obrigado. Continuem firmes e fortes, a humanidade precisa de vocês. Os rios, a terra, a mãe-terra, as florestas, os pântanos, todos nós precisamos de vocês. Nunca abandonem essa luta, essa defesa, esse amor. Nos ensinem a amar também como vocês, em tudo que tem na mãe-natureza. Em segundo lugar, parabéns. Vocês têm tradições, ensinamentos, sabedoria muito grande de seus antepassados, mas mesmo assim vocês avançaram, não ficaram intimidados com o mundo moderno; aprenderam a utilizar as coisas que ele oferece e é bom aprender e usar também. Agora, junto com isso, eu faço uma advertência: enquanto apreciam, aproveitem e utilizem para ajudar o povo da mãe-terra, a mãe-natureza. Enquanto aproveitam a modernidade, não sejam engolidos por ela; não sejam engolidos por suas mentiras, falsidades, seus enganos. Não se iludam, não se deixem ser tragados pelo poder, pelo dinheiro, pela riqueza. Os seus ancestrais, seus pais e avós, eles sabiam o que é a verdadeira riqueza, que não é ter muitas coisas, muitos objetos, muito dinheiro ou muito minério. Nunca esqueçam o que eles ensinaram, não significa que tenham que viver no passado, não. Não significa que tenham que usar trajes diferentes, não. Independente do que você veste, independente de que igreja você frequenta; independente de que partido político; além de tudo isso, mantenham os valores, os princípios que seus pais, avós e ancestrais os ensinaram. Aliás, alguns de seus pais talvez já foram engolidos por essas falsidades do mundo moderno, que têm que competir para ganhar, que ter, é poder. Não, não caiam nessa, examinem bem à luz dos valores de seu povo. Eu tenho aprendido muito com vocês, o respeito não só por uns aos outros, mas por tudo que a natureza nos apresenta; sejam respeitosos, tratando com reverência, tratando as pessoas todas com igualdade. E quem é diferente, que tratem com as diferenças que eles merecem ser tratados. Com um senso forte de justiça, um senso forte de um amor enorme, uma confiança, uma fé. Vocês acreditam em Deus, com muitos nomes diferentes que dão. Permaneçam assim, sejam firmes, sejam fortes, sejam colaboradores, vivam em comunidades, ajudando uns aos outros, sem excluir ninguém. Aprendam os segredos da Terra com seus antigos, os segredos que eles aprenderam na floresta. Eu aprendo tanto quando estou junto de vocês. Quando alguém vai entrar no rio, primeiro pede permissão do rio. Isso é respeito. Quando vai cortar uma árvore, explica para a árvore que precisa fazer uma canoa ou transformar em tábuas para uma casa. Não simplesmente pensar que é dono de tudo. Não somos donos de nada, somos filhos e filhas da Terra. Nunca esqueçam isso, levem isso com vocês até a velhice e passem isso adiante, pros seus filhos e netos. Se vocês se divorciarem disso, caem na enganação das pessoas que dizem tudo é poder e dinheiro; se isso acontecer, meus filhos, vocês não serão descendentes de seus ancestrais, vocês não terão uma identidade a que se defender, se agarrar e nem tampouco serão cristãos, porque Jesus não fazia isso e nem tampouco os seus apóstolos. Eu amo vocês e tenho muito orgulho de ver vocês em posições no governo, como advogados, médicos, professores. Vocês estão em posições importantes para influenciar o mundo. Pois façam, mas façam uma influência boa, em colaboração e união e não de competição e divisão. Com amor e generosidade e digam não à ganância e ao poder.

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