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Sorte e azar

Paulo Roberto Ferreira
Mira conseguiu um lugar para sentar-se no ônibus. Vibrou de contentamento. Considerou um momento de sorte. Depois de viver um dia cansativo, limpando móveis, pisos, lavando banheiro, trocando lençóis de cama e toalhas de mesa, a diarista regressava para casa. Suas pernas e pés estavam molhados. A sombrinha a protegera da chuva, mas não impedira os pingos de água. Quando entrou no coletivo e viu um lugar vago, logo após a roleta, ficou muito alegre. Afinal, seria mais de uma hora de viagem entre o bairro da Campina e Águas Lindas, em Belém. Entre um sacolejo e outro, Mira até conseguia cochilar, tal o cansaço acumulado com a rotina de acordar cedo, fazer comida para os filhos e se deslocar para as casas e apartamentos onde presta serviço. Mas despertava assustada com medo de passar da parada onde desceria. Quando chegou em casa, a chuva já tinha passado, e o sol imprimia no céu cores vibrantes de despedida. Vermelho misturado com amarelo. Dava a impressão de chama. Como na sexta-feira teria que fazer faxina numa casa na ilha de Mosqueiro, a diarista começou a providenciar a comida do dia seguinte - tanto para levar em sua marmita como para deixar ao casal de filhos. A menina trabalhava num armarinho no próprio bairro e estudava à noite. O rapazinho passava a manhã como menor-aprendiz num supermercado e estudava no turno da tarde na mesma escola pública onde a irmã fazia o EJAI (Educação de Jovens, Adultos e Idosos). Os três passavam pouco tempo em casa durante os dias úteis da semana. Sábado e domingo era o tempo de reencontro da família. Mira colocou o feijão no fogo, armou uma rede e ligou a televisão para assistir a mais um capítulo da sua telenovela preferida. Sorrateiro, o sono roubou-lhe o estado de vigília. O tempo passou e os vizinhos começaram a sentir um cheiro forte de queimado. Daí a pouco perceberam que a fumaça saia da casa de Mira. Algumas pessoas ficaram agoniadas e começaram a bater na porta da diarista. Outros gritavam seu nome. Porém, como não havia resposta, deduziram que não havia ninguém em casa. Começou um rebuliço na rua. Cada um dava uma ideia do que deveria ser feito. Coisa muito comum nesses momentos de pânico e dramas humanos. O som da sirene do carro do bombeiro despertou Mira. Assustada, pulou da rede e correu em direção ao fogão. Mas aí percebeu que não havia chama, nem fumaça, nem sirene. Nem mesmo a agonia dos vizinhos. Nem a panela estava no fogo. Tudo não passara de um sonho. O que poderia ter sido uma desgraça, transformou-se num alívio para a diarista. Ilustração: Isabele Cristina

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